sexta-feira, 30 de março de 2012

Meu dono de estimação - Separadas ao nascer

Zoe Cristina chega do passeio. Entra em casa bravinha, com um humor de cão!
Lua Maria entra atrás, ressabiada, com as orelhas meio baixas, desconfiada.
Zoe late primeiro:
- Nem olhe pra mim! Estou avisando... estou mordendo o ar!!
- Credo, baixinha! Que raiva é essa? O que eu fiz pra você?
- O que você fez? Ainda tem coragem de perguntar?
- Juro, Zoe... não fiz nada...
- Ah, é?! Quer dizer que a gente se separa durante o passeio, porque eu segui com os cães menores, e você com os maiores, e quando a gente se encontrou na porta da padaria você nem olhou na minha cara! Cheguei fazendo festa e você me deu aquele olhar de: "nem te conheço"? Aqui dentro de casa somos irmãs, você me chama de baixinha, e coisa e tal... e na rua me trata desse jeito?
- Eu fiz isso? Você bebeu Zoe Cristina?
- Você é quem deve ter bebido. Nem se lembra? Aliás, o que você estava fazendo com aquela outra pessoa? E que cachorro boxer era aquele ao seu lado?
- Tem certeza de que era eu? Olha, juro pra você que eu não me separei da matilha dos cães maiores. Fiz o passeio quietinha, na boa. Pode perguntar pra tia Camila.
- Como não era você, Lua Maria? Eram seus olhos, do mesmo jeito, da mesma cor. Eram os mesmos desenhos na cabeça, a mesma cor do pelo, você só estava uns quilos mais magras.
- Mais magra? Pituquinha, presta atenção. Pensa um pouco...vamos lá, use o seu cérebro de nóz moscada: como eu posso estar com este peso agora, um pouco "fofinha", e horas atrás, quando você acha que você me viu, estar pesando menos? Impossível, né?
- Nossa! Não tinha pensando nisso. É mesmo. Impossível. Então, quer dizer que aquela cachorra que vi na porta da padaria não era você?! Mas, era a sua cara... ou melhor, era o seu focinho...tudo igualzinho...até seus dentes branquinhos, Lua! Eu juro!!
- Calma! Eu acredito em você. E posso explicar. Você encontrou, na verdade, a cachorrinha que se chama Vida. Ela está sob os cuidados de uma pessoa muito legal, a Ana Maria que também tem um boxer. A Vida foi encontrada numa situação difícil, estava na rua, num lixão, numa cidade do litoral paulistano. Ela estava magrinha, abandonada, e a Ana Maria se encantou com ela. Fez o resgate e trouxe a Vida pra São Paulo, e agora ela mora no apartamento desse boxer que se chama Thor. Entendeu?
-Puxa!!! E ela é sua irmã gêmea, não é?
- Pois é, eu ouvi nossas mamis conversando sobre essa história. E elas acham que sim, somos irmãs. É que quando eu e meus irmãos nascemos, uma irmãzinha foi doada e a gente não sabe muito bem pra quem. Essa pessoa pode ter levado a Vida pra longe e ela pode ter fugido, ou ter sido roubada, ou até mesmo abandonada, e estava vagando pelas ruas, morando mal. Até ter a sorte de ser encontrada pela Ana Maria.
-Que coisa incrível, Lua! Vocês só podem ser irmãs... Eu juro que confundi você. Saí da porta da padaria latindo brava mesmo, falando barbaridades e a tal da Vida não deve ter entendido nada...hehehe...
- Deve ter entendido que neste bairro tem uma cachorrinha meio maluca...
- Ah, eu vou pedir desculpas e explicar tudo direitinho quando encontrá-la novamente. Mas, vocês precisam se ver...
- Nossas mamis estão arrumando esse encontro.
- Uau! Vai ser incrível. Você vai olhar para a Vida e vai achar que está se vendo num espelho...só que um pouco mais esbelta. E a Vida vai poder ver como ficará, se comer demais...hehehe...
- Cheia de piadinhas, né Zoe Cristina?!
- Eu sou assim: espirituosa, criativa. Mas, estou impressionada! Sim, porque nós cãezinhos de "raça", como pincher que sou, todos nós somos mesmo muito parecidos. Mas vocês, sem raça definida, não. Vocês, cada um tem uma cara diferente. Nunca vi dois tombas latas iguais!!
- Tomba latas? Eu vou é tombar você, sua nanica!
- Calma, olha a violência! As mamis já avisaram que não querem mais confrontos dentro de casa.
- Hum... Você tá provocando... Tá se "achando" só porque diz que tem uma "raça"...quanta bobagem!!
- É, tá certo. Você tem razão. Não temos que valorizar essas tolices de raça e sangue azul, como é o meu caso, né?
- Vou morder a sua "fuça" pra ver se sai sangue azul, ah se vou!
- Calma! Respire. Vamos fazer ioga maninha...
- Não enche Zoe.
- Lua... estava aqui pensando: vou fazer amizade com a Vida porque o dia que você não quiser brincar comigo eu corro pra ela... morder a Vida deve ter o mesmo gostinho de morder você!
- Interesseira!
- Inteligente, você quer dizer, né?! Tá com ciúme, é?
- Só me faltava essa!
- Confessa, Lua Maria: confessa que você me ama e não vive sem mim!
Nesse momento, as duas se embolam pela cama, caem da cama, correm até o sofá, se embolam pelo sofá, caem do sofá, se embolam no tapete e só não caem do tapete porque não dá pra cair no andar debaixo, na cabeça do vizinho.
Depois de muitas emboladas, as duas cochilam felizes. Lua Maria, curiosa, pensando que deseja conhecer a possível irmãzinha. Zoe, em segredo mais secreto, pensa que se uma Lua Maria já é ótima, duas então! E ela se sente feliz com a ideia de ver Lua e Vida juntas. Independente de todas as piadas, e de um jeito "meio estúpido" de ser, Zoe Cristina tem um coração enorme, que mal cabe no seu corpinho de 3 quilos. E ela ama, de paixão, Lua Maria... mesmo com mordidas e patadas diárias. Elas são as melhores amigas, as irmãs inseparáveis e ajudam a compor uma família. Família feliz!
Lua suspira. Zoe suspira. A noite vem chegando mansa pela casa. Daqui a pouco o irmão humano vai entrar, agitado, barulhento, dançando, batucando, cantando Michel Teló (ninguém é perfeito). E as mamis chegarão do trabalho, mortas de saudade da casa, dos pequenos, da vida boa que têm o privilégio de viver. Amém, amém, amém!

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