sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Meu dono de estimação - "Lava roupa todo dia, que agonia"

Nossa fiel escudeira, Lucimara, está de férias. Viajou para a Bahia e estamos tentando manter a casa em ordem, a roupa lavada e passada, todos alimentados, mamis, criança, cachorras, peixe e plantas, e um mínimo de limpeza e frescor entre bem mais de quatro paredes.
As meninas, Lua Maria e Zoe Cristina, não podem ficar sozinhas no apartamento o dia todo. Se ficassem tenho até medo de imaginar os prejuízos: móveis comidos, coisas quebradas, tapetes roídos, e uma fila de vizinhos raivosos na nossa porta. Lua até que é tranquila. Mas, a pequena Zoe é encardidinha. Late com aquela voz estridente que Deus deu aos cães da raça Pinscher. E não para. Simples assim. Eu digo "não" diversas vezes, usando diferentes tons que variam da advertência inicial para o total desespero, e ela não desiste de latir. Desse modo, para mantermos a convivência pacífica com os vizinhos, Lua e Zoe ficam na creche da Quinta dos Bichos, ao lado de casa. Elas gostam. Brincam o dia todinho com outros cães, correm, latem, trocam mordidas, descansam, cochilam e correm mais um pouco. Quando pego as duas pequenas no final da tarde elas estão acabadas e só querem cama, ventinho e água fresca. Nunca dormiram tão bem! Estão mais calmas e até mais comportadas.
De manhã, Lua fica rondando, vai pra lá e pra cá, com aqueles olhos pidões, como se dissesse: "E aí? Hoje não tem passeio? Não tem creche? Quero brincar....me leva, vai?!". Enquanto lavamos a louça do jantar, preparamos o café, colocamos uma máquina de roupa pra bater, dobramos e guardamos a roupa que já secou e que não exige um bom e  quente ferro, as meninas estão por ali, emboladas, brincando, correndo de um sofá para o outro. É uma meia maratona para deixarmos tudo arrumado e ainda sairmos no horário.
Enquanto faço o café, limpo o banheirinho das meninas e dou comida a elas. Cada uma num lugar pra evitar briga. Lua come na cozinha e Zoe, na sala. Alimento o peixinho, coloco água nas plantas.
De repente o leite ferve e derrama. Todos os dias, ele derrama...Todos os dias me lembro da minha pré-adolescência. Lá estou com 12 anos tomando conta do leite que vai ferver, enquanto minha mãe trocava a fralda de meu irmão bebê. E sempre o leite fervia e escorria fogão abaixo. Por mais que eu fixasse minha atenção, meus olhos, naquela leiteira, pimba!! Lá vinha o leite, lá vinha a bronca de minha mãe. E não é incrível que hoje, com 46 anos, eu ainda deixe o leite ferver? Mereço a bronca. Agora da minha mãe interna que não se conforma: como a paspalha da filha chega aos quase 50 anos com os mesmos problemas e defeitos?
Bom, o leite derrama, eu limpo o fogão, e me esqueço um pouco das meninas que já acabaram de comer. Há uma regra muito básica no universo dos cães: se algo entra, algo sai. Elas já comeram, vão para a área de serviço em busca dos jornais/banheiro. Eu estou de costas, limpando o fogão e pensando em minha mãe. Elas não encontram os jornais porque eu tirei tudo e estava passando um pano com desinfetante de laranja quando parei no meio pra salvar o leite. Conclusão: depois de limpar o fogão vou limpar, de novo, a área de serviço. Lua e Zoe não podem esperar por um novo jornal e fazem tudo por ali mesmo. Sem cerimônia. Limpo o banheiro delas pensando que não vai dar tempo de tomar o café que acabei de fazer e prometendo que amanhã vou pra padaria. Mas, hoje já está tudo pronto mesmo, então vou comer bem rápido.
Pronto! Estou alimentada, deixo a louça do café pra ser lavada à noite, aumento um pouco mais a pilha de roupas que precisam ser passadas e fico surpresa como essa pilha cresce! Arrumo minha bolsa, pego os óculos, um livro, fecho todas as janelas porque, apesar do calor que vem fazendo em São Paulo, é certeza de que no final da tarde haverá uma tempestade qualquer. Olho ao meu redor: tudo parece certo, ok, em ordem. Pego minha marmita, a chave, e penso: não dá pra sair assim, com tantas coisas na mão porque vou levar Lua e Zoe para a creche e é um risco segurar marmita, bolsa, livro, chave e ainda as duas guias das meninas. Desisto da marmita. Mas, vou ficar sem almoço? Desisto do livro. Mas vou ler o que durante o almoço? Pego tudo de volta. Nesse instante Lua Maria está latindo animada e aflita porque percebe que eu peguei as guias e ela quer passear, quer passear e quer passear...
Tento colocar a guia vermelha no pescoço da Lua mas a ansiedade dela é tanta que ela se desvia várias vezes e tenho que deixar bolsa, marmita, livro e chave no chão pra poder acertar a guia no pescoço dela. Pronto! Consegui. Agora é a vez da Zoe. Mas cadê a pequena? Quando eu pego as guias, invariavelmente Zoe foge. Vai se esconder. Ela gosta de ficar na creche mas não gosta de ir para lá. Dá pra entender? Paradoxos, como diria minha amiga Josiane Cordeiro.
Saio pela casa chamando: "Zoe, Zoe...cadê você?" Nada debaixo da cama, nada nos banheiros, nada atrás do sofá da sala de tv. "Zoe, anda logo, vamos acabar com essa brincadeira! Eu estou atrasada!!". Nada na cozinha, nada no quarto da Lucimara. "Zoe, agora chega! Pode aparecer já!!!". E lá está ela. Emboladinha entre os panos coloridos que cobrem o sofá. Eu só a encontro com a ajuda de Lua Maria que se cansa de esperar, quer sair, e sabe, pelo cheiro, que a irmã encrenca está ali, escondida, fazendo de conta que é almofada. Tiro Zoe das dobras do sofá, tento colocar a guia nela umas 5 vezes, pelo menos. Ela não deixa, não quer. Me morde. Eu visto uma patinha, ela tira a outra. Eu visto as duas patinhas, ela se vira de barriga pra cima. E eu me vejo como aquele personagem do desenho "Alvim e os Esquilos". Exatamente igualzinho a ele. O empresário estressado gritando: "Zoeeeeeee...".
Ufa! Tudo certo agora? Janelas fechadas, pego a bolsa, a marmita, o livro, os óculos, Lua e Zoe. Cadê a chave? Ai meu pai... a chave... solto tudo de novo. Provavelmente enquanto eu arrumava a guia em Lua Maria, Zoe roubou a chave...ela adora roer meu chaveiro de peixinho vermelho. Saio pela casa e daí não adianta nada gritar: "chaveee"... Lua não entende o que estou procurando e não pode encontrar, pelo cheiro, para mim. Vasculho tudo. As meninas se embolam na sala. Lua está brava com Zoe. Elas estão a uma pata de uma briga. Desisto de procurar o chaveiro. Penso em fazer isso à noite. Decido sair pela sala mesmo, com a chave reserva. Tento sair bem quieta porque o correto é sair com as meninas pela porta da cozinha. Rezo para não dar de cara com a vizinha. Minhas preces são atendidas. Não encontro ninguém. Ufa! Consigo chegar ao elevador de serviço. Mando Lua Maria sentar. Pego Zoe no colo porque já começou o momento "vou latir até seu cérebro explodir". E aperto o botão do elevador. Nada. Ele está parado no térreo. Não se move. Hoje é dia! Começo a ouvir movimentação na cozinha da vizinha. Zoe também. Ela late ainda mais. Eu rezo mais ainda. São Xico de Assis, ajudai que a vizinha não saia agora, que o elevador venha ao décimo quarto andar bem rápido, que a Zoe pare de latir. Nada. O elevador deve estar quebrado. Para ter certeza sobre isso, só voltando ao apartamento. Lá dentro: soltar Lua, soltar Zoe, soltar  bolsa, livro e marmita, e usar o interfone. Mas, um pequeno detalhe. Trocaram o interfone recentemente e há um número de código que eu preciso teclar para falar com o porteiro. Por que não simplificam as coisas, hein? Mais um código pra decorar? Não pode ser o bom e velho zero ou nove que todo mundo já conhece?
Desisto do interfone. Pego as meninas e minhas tranqueiras. Saio mais uma vez. Nada da vizinha. Ouço o som maravilhoso do elevador se movendo. Será que agora vai? Mais uma prece: para que o elevador chegue vazio. Não chega. Não posso entrar com uma cachorra de 3 quilos gritando que vai matar todo mundo e outra cachorra de 13 quilos que não late, não avisa, mas morde. Solto a porta do elevador e espero. Na próxima, quem sabe? Espero. Zoe late. Lua rosna. Os barulhos na cozinha da vizinha aumentam, em muito. Acho que ela está irritada, acho que ela vai escrever uma carta para o síndico. Estou com calor. Estou em pânico. Penso em pedir ajuda, penso no celular e...cadê o celular? Ah, não!! Deixei no quarto. Volta tudo. Voltamos para o apartamento. Não solto nada na sala. Estou morrendo de pressa. Levo as meninas e as tralhas a tiracolo para o quarto. Pego o celular. Saio de novo...O elevador já passou. Chamo mais uma vez. Agora desanimada, cansada, amarrotada. Paro de rezar. Minha mente é um muro em branco. Estou com raiva. Se a vizinha aparecer agora sou capaz de soltar a Zoe nela. Se alguém subir nesse elevador, vou entrar assim mesmo e deixar que Lua experimente a canela de quem se atrever. Mas, para meu alívio, o elevador chega vazio. Descemos. Saio feito um raio do prédio, sem dar bom dia para ninguém.
Chego na creche e meu bom humor começa a voltar. Lá os cães podem latir, podem morder, podem ser cães. Ninguém liga para o barulho de Zoe Cristina, eles a chama de pequenina, são amáveis. Todos amam os beijos de língua de Lua Maria. Entrego as pequenas com confiança. Pronto. Posso ir trabalhar. Checo o celular, há ligações perdidas. Preciso dar retorno. Vejo o dia... dia 10... ah, não! Dia de pagar algumas contas. E cadê as contas? Claro, estão em casa. Lá vou eu... E ainda bem que volto porque nesse vai e volta não me dei conta de que as meninas deixaram dois presentinhos nos jornais, na área de serviço. Vamos limpar, catar jornal molhado e sujo, e passar pano... E, pensando aqui com rodo nas mãos e sentindo o aroma do desinfetante de laranja: cadê minha marmita e meu livro? Ficaram no pet...
Lucimara!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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