sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Meu dono de estimação - Carência animal

Sou daquelas pessoas que podem ser chamadas de "cachorreira". Adoro a convivência com os cães. Chego a me identificar com o jeito canino de ser em quesitos como fidelidade e dedicação (para minha angústia porque um ser humano parecido com um cachorro, fiel demais, dedicado demais, é sinônimo de chiclete chato, pessoa de pouco valor). Gosto de cachorro dentro de casa, em cima dos sofás, e adoro cachorro na cama. Minhas pequenas, Lua Maria e Zoe Cristina, desde que chegaram dormem na cama. Ou dormiam. Como tudo muda, tudo se transforma o tempo todo, e nem sempre para melhor, minhas pequenas perderam a cama grande a agora estão dormindo em suas respectivas caminhas de cachorro, na cozinha.
Confesso que isso me angustia. A decisão foi tomada porque não aguentei mais acordar toda madrugada para abrir a porta do corredor dos quartos para que as duas pudessem fazer xixi na área de serviço. Três e pouco da manhã e elas começavam a arranhar a porta. Só faltavam falar: "xixi, xixi...". Durante um tempo eu consegui acordar e me levantar, ficar ali em pé no corredor, no escuro, esperando que elas usassem os jornais, tomassem água, e voltassem para a cama. Mas, uma madrugada dessas eu passei mal e tive um apagão. Cai de novo, feito um saco de batatas, e como já quebrei a perna numa queda dessas, recente, fiquei com medo de me quebrar novamente. Daí a decisão de colocar as meninas pra dormir na cozinha, onde elas ficam com livre acesso para a área de serviço, os jornais e a água.
Ora, por que você não deixa a porta do corredor aberta e elas podem ir e vir facilmente? Pois é... Dona Lua Maria quando encontra essa porta aberta, de madrugada, invariavelmente erra o local e ao invés de usar os jornais usa a sala, atrás do sofá, tapetes, enfim... ela se recusou a aprender nestes dois anos de existência. Então, me vi forçada, obrigada, a escolher: ou novas quedas e quebraduras de madrugada ou Lua e Zoe na cozinha.
Elas estão bem. Latiram na primeira noite e Zoe rasgou a caminha da Lua na noite seguinte. Depois os latidos diminuiram e Zoe entendeu que, com ou sem cama, elas ficarão mesmo na cozinha para dormir.
Quem não está bem sou eu.
A cama ficou grande demais. Me sinto só. Viro e não encontro patinhas e focinhos no escuro. Acordo e não há patinhas enfiadas nas minhas costelas, nem brigas, rosnados, defesa de espaço conquistado. Passo os pés debaixo do edredom e não há Lua Maria, quentinha, enorme, tomando toda a cama. Não há mais suspiros de cachorro, nem o cheirinho salgado das patas das meninas. Tenho dormido mal. Sei que preciso acostumar.
Tento ouvir entre os silêncios da casa, na madrugada, e percebo que elas estão muito bem, já se ajeitaram, já se acostumaram ao novo espaço e talvez até gostem mais... Eu e minha carência nos abraçamos na cama e sinto frio. Madrugadas quentes em São Paulo, abafadas, e eu sinto frio... É um vento interno, zunindo na minha alma, atrapalhando as batidas do meu coração que já anda meio cansado. O vento me cobre com um suor frio, calafrios. Eu sei, eu sei: terapia, oração... do divã à água fluidificada. Eu sei tudo que se passa na cabeça do leitor neste momento. E mesmo assim, não sinto nenhum conforto.
Quando o dia amanhece, abro o portãozinho da cozinha e as meninas saem voando baixo rumo ao quarto. Sobem na cama, fingem que brigam, pegam seus espaços entre as cobertas reviradas, e daí me dou uma meia hora cochilando perto delas. Suspiros. Coração batendo manso. Meia hora para ser feliz.

Nenhum comentário:

Postar um comentário