quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Meu dono de estimação - A noite dos latidos silenciosos

Hoje, nossas meninas estão quietas. Lua Maria e Zoe Cristina recolheram as patas, se deitaram na cama, e só olham, em silêncio. Não é porque esfriou em São Paulo. Não é por falta de passeio ou tédio. Mas, sim por uma sensação de que é melhor não dizer nada.
Tudo começou com uma reclamação da vizinha: barulho demais. Segundo ela, quando não estamos em casa, Zoe e Lua latem muito. Que elas corriam pela sala, que elas comiam plantas e pedaços dos sofás, isso nós sabíamos. Mas, não imaginávamos que elas latissem o tempo todo durante nossa ausência.
Elas já estão avisadas: vão ganhar coleiras que emitem um sinal sonoro desagradável se começarem a latir. E no lugar de um portão entre a sala e a cozinha, a casa vai ganhar uma porta. Maciça, para impedir que elas façam a festa quando sozinhas.
Com essas notícias, elas fecharam o focinho. Zoe Cristina prometeu comer a coleira assim que possível, a dela e a da Lua. Não duvido. Essa baixinha é capaz de feitos incríveis!
E quando elas começaram a esquecer da promessa da coleira, e voltaram a se animar pela casa, veio a notícia de que o primo Billy estava com as patas de trás paralisadas, Billy é  Dachshund preto, bem pequeno, de 4 anos, que vive com meus pais. Ele ficou com o andar estranho e logo não pode mais mexer as patas traseiras. As meninas ficaram assustadas e choraram baixinho pelo primo.
Meus pais correram com Billy e entre um diagnóstico e outro, chegamos aos anjos de jaleco branco, Dra Valéria Corrêa e Dr Bruno Testoni Lins. Billy será operado logo mais. Está com problemas na coluna e com a cirurgia tem boas chances de voltar a andar. Segundo os especialistas as hérnias na coluna são um problema comum nessa raça que, carinhosamente, todos chamam de "salsichinhas". A predisposição genética do pequeno Billy não deu trégua, apesar dele ser um cachorro magro e bem ágil.
Ver Billy se arrastando, como uma foquinha ferida, era de cortar o coração. Isso sem falar da tristeza azul, líquida, escorrendo dos olhos claros de minha mãe que trata seu pequeno salsicha como um filhote eterno.
Por isso, enquanto aguardamos a passagem das horas, a ida de Billy para a cirurgia, a melhor notícia, e sua recuperação, estamos assim: quietos, pensativos, em oração. Lua Maria e Zoe Cristina, que são devotas de Francisco de Assis, estão conectadas ao otimismo, à esperança e à alegria que todo cachorro tem por natureza.
Eu faço força. Tento, todos os dias, manter a fé na vida, a fé no melhor que pode nos acontecer. E mesmo mantendo a fé, hoje estou de poucas palavras, como se eu mesma estivesse usando a tal coleira que emite um sinal desagradável aos meus ouvidos. Desagradável ouvir a vizinha reclamando das meninas. Não tiro a razão dela, é ruim ouvir cachorro latindo, sim senhora, e Lua e Zoe precisam aprender a se comportar.
Mas, é desagradável a dúvida: se as meninas vivessem numa casa, com quintal, com outra família, seriam mais felizes...poderiam latir à vontade.

Desagradável ver um bichinho tão indefeso, como o Billy, passando por uma provação desse tamanho. Desagradável ver meus pais, arqueados, sentadinhos na recepção da clínica veterinária, envelhecidos e tristes. Desagradável todo dia recolher um pedaço dos sonhos que se desmancham no ar, sonhos que o vento leva...

Desagradável não ter a palavra certa, aquela que poderia ser um "abracadabra" na vida de muita gente. Enfim, vamos esperar... vamos manter a fé em melhores cenas dos próximos latidos...

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