quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Meu dono de estimação - Um brinquedo velho/novo todo dia


Na próxima vida quero nascer cachorro. Ou pelo menos com a sabedoria que os cachorros trazem desde sempre. Digo isso porque aos 46 anos ainda tento incorporar uma lição simples, básica, uma lição que todos os dias as minhas fiéis companheiras, Lua Maria e Zoe Cristina, demonstram que conhecem de cor e salteado.
Elas não sofrem por bobagens. Elas acordam de bom humor, elas são felizes com as caminhas e os cobertores que têm, com a ração e as frutinhas que ganham, com a água fresca que tomam com gosto, e elas se divertem com os mesmos brinquedos velhos, rasgados, comidos, como se tivessem acabado de ganhar a preciosidade.
Faz dias que as duas rolam pela casa disputando um urso verde de borracha. Ele já está com um pé e uma orelha devidamente roídos, ele está prestes a perder o focinho e o olho esquerdo e não vai demorar muito para que o bicho seja partido ao meio. Ele está horroroso, poderia virar lixo reciclável fácil, fácil. Mas, para as duas pequenas, esse urso vale ouro, ainda é um presente e tanto: saboroso, especial, algo que faz a festa e que vale ser disputado, dente a dente.
Eu gostaria de agir, naturalmente, dessa forma: valorizar os meus ursos verdes, mesmo que rasgados e um pouco deformados. Gostaria de acordar e saltar da cama feliz, sintonizada apenas com coisas boas, leves, e pular de alegria ao ver o que já tenho, o que já é meu, o que já conquistei.
Por que não posso sentir de modo mais simples? Faço a pergunta à Zoe Cristina e ela me olha desconfiada, vira a cabeça totalmente para um lado, depois para o outro, faz cara de deboche e sai correndo de perto de mim. Volta com um pedaço do urso, talvez a orelha que havia sobrado, e joga a borracha verde no meu colo. Zoe me olha, pisca algumas vezes, ensaia uns pulinhos e faz cara de quem não entende. Ela está me oferecendo um pedaço do brinquedo, do que tem feito ela e Lua Maria felizes, está dividindo comigo um pouco do tesouro delas, e eu me recuso a aceitar? Não vale. Ela pega de volta o pedaço de borracha babada e vai se deliciar com ele no outro sofá. Eu que fique com minhas caraminholas, minhas questões existências.
Zoe Cristina não tem tempo, nem paciência, pra tamanha bobagem. Afinal, é muito bom estar vivo, alimentado, aquecido, e saber-se amado. O que mais eu quero? Realmente. O que mais eu quero? Penso na canção "Ouro de Tolo", do Raul Seixas, e me encaixo no verso: "Ah! Mas que sujeito chato sou eu. Que não acha nada engraçado...".
Que mania mais perigosa essa de analisar tudo, de buscar todos os ângulos da mesma questão, de querer mais e mais, sempre... Cansativo. Tudo é simples e pessoas como eu complicam até uma gota de água.
Mas, nem tudo está perdido. Pelo menos eu reconheço que carrego nas tintas além do que deveria. Emoção demais, teorias demais, tudo demais da conta. E gostaria de mudar, de desconectar os fios que dão choques e inventam tempestades dentro de mim. Gostaria de uma chuvinha mansa, simples, dessas que deixam a gente com sono, com vontade de café quente, bolo de laranja e filme bobo na tv.
Opa! Minhas meninas gostaram dessa opção e prometem se ajeitar no meu colo, assim que acabarem de mastigar as partes mais apetitosas do urso verde. Vou tentar, juro! Vou abrir os armários do meu coração, tirar de lá meus ursinhos de borracha e prometo roer cada um deles. Devagar, sentindo gosto e textura, deixando que a borracha, amarela, azul ou lilás, dos meus brinquedos me encha de cores, me faça um arco... íris.

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