quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Meu dono de estimação - Estilo Tom e Jerry de viver


- Ei, você não vai me ajudar? Grita Zoe Cristina diante da tela do notebook.
- Eu tô ajudando, você mandou vigiar a porta, não mandou? Então, tô olhando pra ver se ela chega... Responde Lua Maria bocejando de sono.
- Não, pateta, falei pra me ajudar aqui a ligar esta coisa. Ela vai demorar. Foi pra terapia. Esse negócio demora uma eternidade. Eu quero ligar logo isto aqui pra escrever a coluna enquanto ela está fora. Anda, vem me ajudar.
- Eu não sei ligar computador. Vê isto ajuda... tenta ligar com a chave. As mamis não usam chave pra tudo?
- Dá aqui, deixa eu ver... onde encaixa a chave neste treco, hein?
- Ah, não sei não...
Zoe Cristina se concentra, empurra a chave sobre o teclado, sobre a tela, para um pouquinho pra roer o chaveiro.
- Hum, até que esta borboleta amarela é gostosa...
- Se você vai desistir e vai ficar aí comendo o chaveiro, eu vou voltar pro meu urso verde que estava delicioso. Quer saber? Não vou mais vigiar a porta, não...
- Desistir? Você acha mesmo que existe essa palavra no meu dicionário? De jeito nenhum! Zoe Crisitina não desiste nunca! Eu vou ligar este negócio aqui, eu vou, eu vou, eu vou!
Dando focinhadas pelo teclado, Zoe Cristina acerta em cheio o botão que resgata o computador do estado de "dormir".
- Ah, viu só? Consegui! Eu sou demais!
- Ah, sei lá... grande coisa ligar isso aí. As mamis fazem isso o tempo todo.
- É, fazem sim, pateta, mas pra nós do reino dos cachorros não é tão fácil assim. Só que eu não sou apenas uma cachorrinha pintcher. Eu sou um fenômeno, uma inteligência rara, uma sensibilidade fora do comum, entendeu?
- Você é uma sensi o quê?
- Deixa pra lá, Lua Maria, deixa pra lá... Come aí o seu urso verde que eu tenho que ver um negócio na internet...
- Hum, tô sabendo... Você ficou cismada com o tal do Tom e Jerry, né?
- Na verdade, dona Lua, eu não gostei da comparação. As mamis deveriam dizer que somos únicas, sem igual, e não comparar a gente com esses bobos que aparecem no desenho.
- Acho que eles são famosos...
- São bocós, isso sim. Olha só aqui... Tá vendo? É um gato e um rato que passam a vida numa perseguição sem fim. Eu não gostei de ter sido comparada ao nanico do Jerry... eu sou um cachorro ou um rato?
- Ah, você até que parece com o baixinho aí... E eu gostei da cara do Tom. Esse gato parece boa gente.
- Sim, e você se acha boa gente? Vai se achando, vai, sua falsa! E as pessoas que a senhora já mordeu que eu sei que mordeu?
- Só mordi gente que merecia, tá?
- Tá, tá bom... mas não vem posando de gatinho manso não que eu te conheço!
Nisso, as duas se estranham, começam a rosnar uma pra outra. Zoe ataca Lua no pescoço. Lua revida e vira Zoe de barriga pra cima.
- Tá vendo Zoe? A gente tá brigando igual ao Tom e Jerry...hahahahaha...
- Não me compara a um rato! Eu tenho estirpe, eu tenho raça, não sou como você, sua vira-lata!
- Ei, pega leve... assim você me ofende...
- Nem ligo.
- Nem liga?
- Não...
...
Quando a terapia acaba e a dona do computador chega em casa encontra a seguinte cena:
Zoe Cristina e Lua Maria dormem, cansadas, despenteadas, um pouco babadas e com pequenas mordidas pelo corpo. O quarto de TV está virado. As almofadas do sofá estão pra todo lado, o notebook está no chão e o fio, um pouco roído. Na tela, que por sorte não quebrou, há uma imagem de Tom e Jerry. Um gato, um rato e uma eterna briga. E afinal, eles brigam exatamente por qual motivo? O que querem? Ou querem apenas o exercício da briga, a disputa por si mesma? Haverá paz algum dia para os dois companheiros que, apesar de todas as quedas, socos e armadilhas, se mostram inseparáveis?
Ela deixa as questões existenciais para a próxima sessão de terapia, guarda o notebook e coloca uma cobertinha sobre Lua e Zoe pensando em como elas são lindas, amigas, companheiras, e como elas se dão tão bem... olha só? Dormem como anjos... Ela deixa o quarto pisando leve pra não acordar as pituquinhas. Nesse instante, dois rabinhos e quatro chifrinhos crescem, silenciosamente, debaixo da coberta.

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