quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Meu dono de estimação - Ao vencedor, os coelhos azuis


Quando declarei aqui, na semana passada, que na próxima vida quero nascer cachorro, eu falava sério. E não um cachorro qualquer. Quero nascer um cachorro desses bem insistentes, que latem alto e ardido, ousados, destemidos, que não se enxergam, mesmo pequenos enfrentam outros cães com 10, 20 quilos a mais. Pode ser sem raça, orelhudo, de pernas pequenas. Não importa a forma, quero o conteúdo. Conteúdo desses cachorros pequenos e metidos, como nossa querida pimentinha Zoe Cristina.
Ao contrário de Lua Maria, que é bonachona, boa gente, e só se agita quando ouve a palavra "passear", Zoe é um azougue. Faz juz ao nome. Esta família já perdeu as contas de quantas sandálias ela destruiu, quantos sapatos comeu, quantas plantas arregaçou, quantos buracos  cavou nos sofás da sala, quantos bonecos de pelúcia já roubou de seu irmão humano, só pra sentir o gostinho de destroçá-los. Nossa sorte é que o irmão não liga. Ele dá risada quando vê a pequena Zoe fugindo de seu quarto com algum bicho colorido na boca, achando que é invisível. Zoe e sua caça. Já dizia Machado de Assis, em Quincas Borba: "Ao vencedor, as batatas". À Zoe Cristina, todos os bichos que ela fizer por merecer.
A vivacidade e a teimosia dessa pequenina me inspiram. Sou da legião dos introspectivos, dos medrosos, dos que pensam, pensam e pouco colocam em prática. Isso sempre atrapalhou meus planos. Estou quase na metade da vida e ainda me sinto no começo do caminho. Zoe não. Se ela quer algo é pra ontem. E ela não desiste. Exemplo: o irmão humano ganhou na última páscoa um coelhinho azul de pelúcia que veio com um ovo de chocolate.
Não sei se Zoe cismou com o bicho por ele ter cheiro de doce, ou porque o irmão tentou protegê-lo de seus dentes afiados, ou por tantos outros possíveis motivos, mas ela tanto tentou, tanto roubou o coelho, que um dia destes o irmão se deu por vencido e desistiu. Entregou o brinquedo para Zoe Cristina terminar os pequenos estragos que a cada investida ela deixava: uma mordida aqui, uma desfiada ali.
Triunfal, ela andou com aquele coelho na boca por dias. Paciente, ela abriu as costuras das orelhas e das patas e foi esvaindo o bicho, retirando, em pequenos bocados, os flocos de espuma que serviam de recheio.
Tento aprender com Zoe a insistir até conquistar os recheios da vida. Muitas vezes minha energia se acaba bem antes das costuras serem vencidas. Fico no plano das ideias, dos "quereres". E batata que é bom, nada. Não me canso de admirar a consistência do desejo da pequena Zoe. Enquanto Lua Maria cochila, ela dá os últimos retoques no corpo azul do brinquedo. Os últimos flocos de espuma ficaram sobre o sofá. E quando tentei pegar aquele lixo pra jogar fora, surpresa! Zoe investiu contra mim, dentinhos a mostra, decidida, latindo ardido algo que traduzido dizia: "Se liga, pateta, este recheio de coelho é meu. Vai roubar o seu se quiser brincar também. E sai daqui antes que eu morda seu nariz!". Lindinha demais com aquele ataque de posse. Mas fui resoluta e joguei a espuma fora. Tive medo de que ela pudesse engasgar com as entranhas.
Agora, ela está pra lá e pra cá com a carcaça do coelho vazio na boca e me olha desconfiada. Sem que ela percebesse, fui espiar e descobri o que ela estava aprontando. Ela escondeu o bicho, enterrando-o entre o braço e o assento do sofá. A pequena é sábia: quem guarda hoje uma carcaça de coelho azul tem, pelo menos, um resto de caça pra comer amanhã.

Um comentário:

  1. que texto maravilhoso, Ana!!! Parabéns!
    Beijo,
    sonia.

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