quarta-feira, 13 de julho de 2011

Meu dono de estimação - Resigna-cão

Eu, Zoe Cristina, hoje estou por minha conta e risco.
A mama, ex-pererê, foi à fisioterapia. Está toda metida, "se achando", só porque não usa mais o andador, caminha sobre os dois pés e usa uma muletinha básica apenas se for andar longas distâncias. Lua Maria foi passear com nossa amiga Camila e eu fiquei em casa. Estou me recuperando de uma úlcera na córnea direita que fiz, possivelmente, quando me joguei nos dentes de Lua Maria um dia desses. Já melhorei muito mas a Dra Carol não me deu alta ainda e, por isso, estou com o colar elizabetano e "quietinha". Bem, quer dizer, quietinha é modo de falar, né?
A mama deixou o computador dando sopa, fora do armário. Puxei-o pelo fio com meus dentes super poderosos até que ele se encaixasse aqui na minha cama, sob o sol. Não fui passear mas o sol da manhã eu não dispenso.
Hoje vou falar sobre a resignação que nós, cães, temos como um dom natural. Enquanto a mama, ex-pererê, se preocupa e sofre com o fato de eu estar com este colar de plástico no pescoço, eu só me lembro dele quando tento coçar minha orelha com as patas de trás e não consigo. No resto do tempo, eu não estou nem aí para o colar e ele até oferece certas vantagens na hora das lutas com minha parceira Lua Maria.
Quando me jogo sobre ela com o colar, o impacto é maior, a provocação mais intensa e ela reage de modo mais interessante. Daí pegamos fogo. Corremos da sala para os quartos, atravessamos a cozinha, nos jogamos no sofá, sobre as camas, e o cone de plástico faz uns barulhos gozados que dão a impressão de que eu sou maior, mais forte, e que estou ganhando a lutinha.
Ele não atrapalha minhas diabruras diárias e com ele consigo, ainda, roer os cantos dos sofás, as almofadas, e até mesmo as plantas. Vida normal, apesar do colar elizabetano. E mesmo assim, a mama me olha chateada, me carrega, me enche de beijos e fala assim: "Ah, Pituquinha, desculpa pelo colar... mas é pro seu bem...vai passsar, viu amorzinho?!". Ainda bem que cachorro só dá risada pra dentro e os seres humanos não percebem. Porque nessas horas, em que ela fala comigo com aquela voz de bobona chorosa, eu me mato de rir. Eita mama exagerada!
A outra mama é mais realista, racional, e acha que se tem que usar o colar então usa e pronto. Zero sofrimento. Eu me identifico bem mais com essa mama. Vamos lá, a vida continua e não será um pedaço de plástico que vai me impedir de brincar, de tomar sol, de ser feliz. Até a Lua Maria vem se divertindo com meu cone! Ela o morde pelas abas e nos fechos. Está todo mastigado.
Tudo bem, eu admito que judio um pouco da mama sentimental demais. Mas ela merece, vá! Quando ela vem com essa conversa fiada de "dózinha" de mim, eu olho pra ela com olhos lacrimejantes ( e isso tem sido fácil porque a todo tempo eles colocam colírio e pomada no meu olho direito), faço cara de cãozinho sem dono, carente, e ela se desmancha. Isso sem falar no almoço e jantar dado na boquinha aqui da princesa... Eu mereço!
Mas, deixando meus talentos manipulativos de lado, e voltando à resignação, eu não sofro por bobagem, não. Tem sol eu tomo. Não tem, eu durmo. Tem passeio eu saio e vou latindo em todas as esquinas. Não tem? Eu corro pela casa mesmo ou destruo um pedaço de rodapé, por exemplo. Tem colo quente, eu aproveito. Não tem? Eu me jogo sobre a Lua Maria, que ela é macia e quentinha.
E assim vai. Sou um ser resignado. Especialmente eu me resigno a ser feliz, a viver bem, a aproveitar o que há de bom.
Fica a lição. Tem? Aproveite! Não tem? Inventa outro jeito. Agora vou devolver o computador para o lugar onde ele estava. E vou, resignadamente, esperar Lua Maria voltar do passeio. Hoje ela não me escapa! A luta vai ser "irada"!!
ZOE CRISTINA

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