quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Meu dono de estimação


Elas têm duas mães. E um irmão da raça humana, de sete anos. Entre si, embora sejam do reino canino, as duas são bem diferentes.
A mais velha é Lua Maria Branquela, uma autêntica sem raça definida, de um ano e meio, quatorze quilos, olhos verdes, pele cor de rosa e pêlo marrom clarinho. A mais nova é Zoe Cristina Primeira, do reino das Cristinas (onde todas as Cristinas são "rainhas" mandonas e mimadas). Ela nasceu pinscher, tem seis meses, dois quilos e meio, mas no seu cérebro de noz moscada, ela acha que é um pastor alemão e não perde uma chance de mostrar os dentinhos bem brancos e pequenos e avançar entre rosnados "ferozes".
Antes de Zoe Cristina chegar, Lua Maria vivia um reinado solitário aqui em casa. Voava pela sala, pelas camas, todas as almofadas eram suas e todos os brinquedos acabavam entre seus dentes, esses sim dentes de verdade.
Mas, desde que Zoe chegou, tudo começou a ser dividido. Exatamente pelo meio. Ou seja: metade de um brinquedo numa boca, metade na outra. Isso porque elas querem, sempre, o mesmo brinquedo e o objeto de desejo é puxado até que se parta, se esfarele, se quebre. Lua Maria é uma cachorrinha adulta, passeia pelas ruas, tem mais sono. Mas, seus cochilos preguiçosos na beira da janela, sobre o encosto do sofá, acabaram com a existência de Zoe pela casa. A pequena é filhote ainda e deveria ter sono, deveria dormir mas não dorme. Desde o momento em que desperta, mais ou menos às seis e meia da manhã, pula e provoca Lua Maria o dia inteirinho. Ela quer tudo que a Lua pega. E começa uma lutinha. Vai dando cabeçadas, "bundadinhas", na Lua até tirá-la do sossego. E aí, segurem as coisas! As duas saltam de sofá em sofá, passam correndo da sala para os quartos, sobem e descem das camas, voltam para a sala numa velocidade bem maior até que a gente tem a impressão de que elas alcançaram o nirvana e estão voando...
Tenho observado de perto a rotina das meninas porque, enquanto aguardo o fim de uma reforma no escritório onde eu e minhas sócias vamos trabalhar, mantenho uma rotina de atividades em casa.
Ah, trabalhar em casa! Que delícia! Mais ou menos, né?! Bem mais ou menos... Arrumo tudo sobre a mesa de jantar: computador, telefones, celular, blocos de anotações, canetas, calendário, água fresca. E começo. Meu trabalho é essencialmente escrever. Logo, preciso de uma certa concentração, de um pouco de foco. E daí estou eu envolvida com as palavras e os sentidos e as frases perfeitas que persigo quando Lua Maria passa voando baixo com um sapo de pelúcia na boca. Esse sapo, diga-se de passagem, não era delas. Era do irmão humano, do Rafael. Mas ele, generoso que é, cedeu o brinquedo para ser devidamente comido pelas cachorras. Lua passa voando e Zoe voando atrás. Tento não prestar atenção. Olho para a tela do computador, onde eu estava mesmo? Elas se chocam contra o sofá. Latidos, ganidos, rosnados de vários tons. As duas querem o sapo. No meio da sala, abandonado, está um cachorrinho de pelúcia, também doado pelo Rafael. Largo o texto, me levanto, ofereço o cachorrinho, já caolho, sem nariz e com uma pata comida, para Zoe. Ela aceita, pega o bicho e sai correndo. Volto para meu lugar, para a frase que estava no meio e, de repente, o sapo ficou totalmente desinteressante e a Lua quer o cachorrinho também. Faço que não notei. Elas que se entendam, preciso escrever, preciso trabalhar. Mas, elas estão destruindo a sala nessa lutinha, nessa disputa. Largo o texto de novo, me levanto, dou o sapo para uma e o cachorro para a outra. Volto para o computador mas elas não sossegam. Querem o sapo, não, o sapo é chato. Querem o cachorro, não, o cachorro está sem gosto. Então querem o sapinho, mas não têm certeza e avançam, juntas, contra o cachorrinho, o sapo, o cachorro,o sapo, o cachorro e eu já me levantei umas dez vezes e nem me lembro mais sobre o que estou escrevendo e estou pra ficar maluca com essa disputa animal quando Lua Maria resolve o problema: Ela é mais velha e maior, então vai pegar os dois. Abocanha sapo e cachorro. Zoe Cristina chora um pouco mas parece conformada. Ah, sossego! Volto a escrever. Alguns minutos de silêncio e daí noto: Lua Maria está comendo sapo e cachorro mas Zoe Cristina resolveu que, para se vingar, o bom seria comer o braço do sofá!! Como se não bastasse o buraco que ela já cavou no meio do sofá como se estivesse cavando um túnel na cela da cadeia pra fugir. Sofá novinho... ou "era" novinho. Solto o texto e um grito. Levanto e vou buscar o borrifador que tem cheiro de laranja podre e que dizem ser eficiente para adestrar cachorros e evitar que eles comam a casa. Encho o braço do sofá de nuvens de laranja podre. Eu espirro, Lua Maria foge para a cozinha e Zoe me ataca, quer me morder, quer me matar. Estraguei o lanchinho que ela fazia.
Volto para o computador. Vitória, hein?! Consigo fazer mais umas duas ou três frases até perceber que Zoe vem correndo dos quartos e no meio da sala se abaixa e ploft! Deixa cair um cocôzinho, bem redondo. Largo o texto e mais um grito. Ela foge para a cozinha e eu vou checar os quartos porque se aquela bolinha está na sala significa que os outros 90% dela estão em outro lugar. Bingo! A massa do mal está no quarto do Rafael. Lá vou eu com saquinho plástico, pano, rodo e desinfetante. Limpa, limpa, limpa.
Volto para a sala, está anoitecendo, ligo a luz, preciso ler o que já escrevi para achar o fio da meada... preciso escrever, terminar o texto, preciso me sentir produtiva embora já esteja cansada e é quando vejo a pior cena: Lua Maria, revoltada com a atitude de pouca higiene de Zoe Cristina, resolveu dar o troco e fez xixi na sala. Não acredito! Não é possível! Pego as duas, digo umas vinte vezes a frase: "não pode, não pode, não pode" e elas me olham com olhos vazios. Já para a cozinha! Prendo as duas. Mais panos e rodo e desinfetante. Limpa, limpa, limpa!
Ufa! Elas estão presas, vou terminar o texto, enfim... Mas, a campainha toca e elas começam uma nova lutinha. Contentamento, alegria! É o Rafael que chegou da escola...
Agora, os três voam pela sala. Estão disputando o sapo. Já ofereci o cachorrinho mas a bola da vez é o verde do sapo. Os três adoram essa lutinha, esse mostrar de dentes, esses barulhos, rosnados, gargalhadas e urros. A vantagem é que o Rafael não faz nada fora do banheiro....pelo menos isso, né?!
Quanto ao texto, bom... vai ficar para amanhã. Vou desligar o computador antes que esse trio endiabrado resolva comer o laptop, voar sobre a minha cabeça e fazer lutinha sobre a mesa de jantar.
Não é mesmo uma maravilha trabalhar em casa?! Tão produtivo!! A gente tem tanto tempo e espaço e fica tão eficiente!!


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